
A Azul pretende implantar o compartilhamento de voos (“codeshare”) com a nova empresa que será criada pela Avianca Brasil em até seis meses. John Rodgerson, presidente da aérea, disse na quinta (14) que a aquisição da nova empresa deve gerar ganhos de sinergia com a integração de operações.
Uma das oportunidades que a companhia vê de crescimento é com o compartilhamento de voos entre as duas empresas, aproveitando melhor a oferta. “Temos experiência em fusão e podemos fazer rapidamente a integração das operações da Azul com as operações da nova empresa”, afirmou David Neeleman, fundador da Azul e presidente do conselho de administração da companhia.
O executivo disse que, além do compartilhamento de voos, a empresa pode integrar o sistema de reserva de passagens da Azul com o da nova empresa. Rodgerson acrescentou que, mesmo recebendo 30 aviões da Avianca Brasil, a empresa não vai mudar o plano de aquisição de novas aeronaves, pelo menos nos próximos dois anos.
A aérea prevê concluir a negociação com a Avianca nos próximos três meses. Ao Valor, a Azul disse que deve ficar com dois terços da operação total da Avianca Brasil, se for aprovado o acordo firmado entre as duas empresas, no valor de US$ 105 milhões.
De acordo com dados da Associação Brasileira das Empresas Aéreas (Abear), a Avianca Brasil atingiu em janeiro uma participação de 11,08% no mercado doméstico brasileiro. A Azul, por sua vez, atingiu participação de 20%. Com a aquisição de dois terços da operação da Avianca Brasil, a participação da Azul no mercado aéreo doméstico subiria para 27%, aproximadamente.
“Nossa intenção, com o negócio, é focar principalmente nos aeroportos de Guarulhos, Congonhas e Santos Dumont”, afirmou Rodgerson.
A Avianca Brasil propõe criar a nova empresa com 30 aviões do modelo Airbus A320 e 70 partes de direitos de pouso e decolagem (“slots”), incluindo todos os slots nos aeroportos de Congonhas (SP) e Guarulhos e metade dos slots do aeroporto Santos Dumont (Rio). O plano é criar uma nova empresa, com as operações mais rentáveis da companhia atual, para ser leiloada no mercado. Os recursos serão usados para pagamento das dívidas.
A Azul informou que as projeções feitas para o ano de 2019 ainda não incluem a aquisição de uma parte do negócio da Avianca Brasil, nem a criação de uma joint venture com os Correios para ampliar o negócio de transporte de cargas.
“É difícil dizer agora qual será o impacto da aquisição da Avianca Brasil. Ainda há muitas etapas a serem superadas até a aprovação final da aquisição. Nesse caminho pode haver mudança no projeto”, afirmou Rodgerson.
A Azul planeja aumentar a sua capacidade de 18% a 20% neste ano. A companhia planeja ampliar de 16% a 18% a oferta para voos domésticos, medida em assentos-quilômetros disponíveis (ASK, na sigla em inglês). Em voos internacionais, a previsão da companhia é ampliar a oferta de 20% a 25%.
A companhia também prevê adicionar 21 novos aviões à sua frota em 2019, sendo 12 do modelo A320neo, seis Embraer e três A330neo. Ao mesmo tempo, vai retirar da frota 15 E-jets. Com isso, vai encerrar o ano com uma frota de 129 aviões, ante 123 aviões em uso em 2018.
Sobre a joint venture com os Correios, Rodgerson disse que está confiante. A parceira foi anunciada pelas empresas em dezembro de 2018. No começo deste ano, a companhia obteve aprovação do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) para formar a associação, voltada ao transporte de cargas. A operação ainda depende de análise do Tribunal de Contas da União (TCU).
De acordo com as informações apresentadas, a nova empresa terá como controladora a Azul, com 50,01% de participação. Os Correios terão 49,99%. A estimativa das empresas é que a joint venture irá movimentar 100 mil toneladas de produtos por ano.
“Os Correios trocaram de presidente três vezes nos últimos 12 meses. O negócio ainda precisa da aprovação final. Estamos confiantes de que a joint venture será aprovada neste ano. Mas, enquanto isso, estamos nos concentrando na expansão da Azul Cargo Express”, afirmou Rodgerson.
A receita da Azul Cargo Express no ano cresceu 56,5% em 2018, em comparação a 2017. O valor da receita não foi informado pela companhia. A participação de mercado na categoria de transporte de cargas cresceu 3 pontos percentuais em 2018, para 15%.
A empresa também vê um cenário macroeconômico positivo para o Brasil em 2019, apesar da desvalorização recente do real em relação ao dólar. A maioria dos custos das empresas aéreas são cotados em dólar e qualquer variação na moeda tem impacto direto nos resultados das empresas.
“O câmbio teve uma trajetória turbulenta no ano passado. Hoje, está pior do que a média do ano passado, uns 4% ou 5% acima da média de 2018, o que é preocupante”, afirmou Alex Malfitani, vice-presidente financeiro da Azul.
O executivo disse que a Azul costuma usar as estimativas do Banco Central para suas operações, mas neste ano está assumindo que o dólar vai se valorizar mais em relação ao real do que o Banco Central projeta. De acordo com o Boletim Focus mais recente, o mercado prevê para 2019 um dólar médio de R$ 3,70. No ano passado, a taxa de câmbio médio subiu 14,8% em relação a 2017, para R$ 3,18.
“Apesar disso, a companhia acredita que pode ter uma boa melhora no cenário macroeconômico brasileiro se as reformas previdenciária e fiscal forem aprovadas rapidamente pelo governo”, afirmou Malfitani.
Gol foi corajosa
O presidente da Azul parabenizou a Gol por ter decidido, na noite de segunda, suspender o uso dos aviões Boeing 737 Max 8, após o segundo acidente fatal com avião do mesmo modelo no último fim de semana.
“A ação da Gol foi corajosa. Tenho que parabenizar a companhia, porque tomou uma decisão difícil antes da Anac [Agência Nacional de Aviação Civil] ordenar a suspensão do uso”, afirmou Rodgerson, em entrevista ao Valor. A Anac anunciou ontem à noite a decisão de proibir voos no país com o avião 737 Max 8.
O executivo acrescentou que a segurança é um tema crucial para o setor de aviação e que a crise em torno da aeronave da Boeing traz reflexos para o setor como um todo. “Ainda é cedo para prever os reflexos do caso da Boeing para o mercado”, afirmou o executivo.
Rodgerson disse que outras companhias aéreas que operam no Brasil têm tentado ajudar a Gol a reacomodar os passageiros de voos que foram cancelados com a aeronave. A Gol usa esses aviões para voos com destino a Miami, Orlando e Quito. Por semana, a empresa realiza 14 voos para esses destinos.
Rodgerson também disse que, por enquanto, as preocupações em relação à segurança de voos, por conta dos acidentes recentes com o avião da Boeing, não provocaram nenhum impacto em valor de seguro pago pelas aéreas, nem nos preços de arrendamento de aeronaves.
Fonte: Valor
