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Aviação comercial completa 90 anos no Brasil

O ano de 1927 foi considerado inaugural da aviação comercial no Brasil. A noção de que o avião poderia ser um transporte como todos os outros possibilitou ampliar o conhecimento do país; inclusive a redescoberta da Amazônia e o desenvolvimento das cidades interioranas, com a construção de pistas de pouso que aumentaram o contato entre todas as regiões.

Primeiro voo

A história começou com uma aeronave batizada de Atlantico, da empresa Condor Syndikat. Os passageiros – apenas oito por voo – pagavam por um ingresso que custava o equivalente a cerca de US$ 40 da época. Na viagem, eles voavam a 150 quilômetros por hora e 50 metros de altura, no trajeto de Porto Alegre para Pelotas e Rio Grande.

O bilhete aéreo número 1 foi emitido para o industrial gaúcho Guilherme Gastal. Há registros também da presença de outros dois passageiros: João Oliveira Goulart e Maria Echenique, de acordo com o pesquisador Paulo Laux.

O jornalista conta que o primeiro voo comercial não teve as melhores condições climáticas para um “voo de cruzeiro”. Mas todos estavam ansiosos pela experiência.

Segundo os livros sobre o assunto, era barrado quem levasse acima de 75 quilos. Sem choro nem reza. Nem pagando mais pelo excesso de bagagem, como ocorre hoje.

Às vezes, diz Laux, passageiros eram convidados a saírem do avião. “Mesmo considerado moderno, o hidroavião Dornier Wal era lento, com velocidade que variava bastante conforme a direção do vento, ficando em torno de 150 quilômetros por hora”.

A ventilação interna fazia-se com as janelas abertas durante o voo. Na decolagem, eram mantidas fechadas para evitar a entrada de água, conforme a obra História geral da Aeronáutica brasileira, assinada pelo Instituto Histórico da instituição.

Ventava muito e as águas no Rio Guaíba estavam bem agitadas. O pouso, que seria uma aventura, teve que ser realizado apenas em Rio Grande. Para a decolagem, o agitar do rio era importante para dar o empurrãozinho para cima. “As pessoas eram corajosas”, diz Antônio Guerra:

Guilherme Gastal, conforme registra Paulo Laux, descreveu detalhes de como foi a compra da passagem na ocasião:

“Comprei o bilhete número 1 da firma Bloomberg & Cia. A passagem aérea não era impressa. Vinha datilografada, com o carimbo da casa […] com os seguintes dizeres: ‘Viagem nº 1. Passagem nº 1. Porto Alegre – Rio Grande. Saída às 8h. Estar no alpendre do cais às 7h30”.

E todos estariam lá diante do piloto alemão Clausbruch, que tinha um contrato de 10 contos de réis por mês, o “equivalente ao valor aproximado de três carros Ford do ano”, aponta Laux. “Era um profissional muito valorizado que poderia pedir quanto quisesse”.

Piloto 01

O primeiro piloto da aviação comercial, como era alemão, foi preso no Rio de Janeiro e ficou detido por três anos. “No entanto, pelo que vi, nunca guardou qualquer mágoa da situação”, afirma Antonio Guerra.

Tudo deu certo para o piloto. Fez carreira no Brasil e nunca foi embora, nem mesmo depois de deixar a prisão. Nem mesmo depois de ser impedido de retomar a atividade aérea. Guerra, pernambucano que fez carreira na Aeronáutica e radicado em Brasília, é reconhecido como um dos principais escavadores da história da aviação no Brasil.

“Lembro que, no cinquentenário do primeiro voo, eu era diretor do Aeroclube de Brasília, que fica em Luziânia (GO), para convidar o primeiro piloto da história da aviação comercial para uma homenagem. Ele aceitou, veio a Brasília e nunca esqueceu daquele voo de 1927. Amava o Brasil apesar do momento conturbado que havia vivido”, afirma Antonio Guerra.

No caso, o primeiro piloto da aviação comercial foi ganhar a vida como taxista, aposentou-se depois com um salário mínimo e morreu aos 79 anos de idade.

Conforme explicam os pesquisadores, o Sindicato Condor rebatizado como Cruzeiro do Sul trouxe know-how para infraestrutura necessária, aeronaves, pilotos, mecânicos. “Tudo, enfim, que garantisse a viabilidade de um novo projeto. O governo federal participava do processo com os entraves usuais da burocracia e os carimbos que garantiriam a autenticidade da documentação”, afirma Paulo Laux.

Era um tempo em que ainda não existiam campos de pouso terrestres. Antonio Guerra identifica que a maior preocupação na época era convencer os passageiros de que era seguro.

Fonte: Agência Brasil

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