
Em novembro de 2009, a presidente da República da Argentina, Cristina Kirchner, reconheceu que a compra das aeronaves E190 da Embraer para a frota da companhia aérea Austral deveu-se mais a uma questão política do que a razões operacionais. Hoje, esse gesto de amizade entre a atual senadora e o ex-presidente Luiz Inácio Lula De Silva está prestes a gerar uma grande perda nos balanços da Aerolineas Argentinas. Durante meses, a empresa estatal está oferecendo as aeronaves para venda.
O problema é que a oferta do mercado para pagamento pelas aeronaves é tão pouco que nem sequer alcança o montante para liquidar o crédito que a Aerolineas deve para essa compra.
O Austral Líneas Aéreas tem 26 jatos Embraer 190, um modelo de 94 assentos, dos quais 22 pertencem a empresa de arrendamento financeiro. Desse número, 20 foram adquiridos na administração de Ricardo Jaime, como secretário de transportes, e Julio Alak como presidente da empresa, enquanto os outros dois foram negociados na época de Mariano Recalde ao comando da companhia aérea da Argentina.
Eles pagaram 34,9 milhões de dólares por cada aeronave, enquanto no mercado eles custam cerca de 30 milhões. Agora, de acordo com os consultores internacionais que analisaram a operação, não valem mais de 12 milhões de dólares.
Na empresa, os alarmes dispararam. Acontece que, pelo crédito do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico do Brasil (BNDES), financiador da operação, eles ainda devem 360 milhões de dólares; portanto, a venda não seria suficiente para cobrir o saldo.
Mas não só isso. Nos saldos da companhia aérea estatal, as aeronaves estão colocadas no ativo por valores que pelo menos duplicam o preço no mercado. Será necessário assumir uma perda ou agilizar a contabilidade inventiva para compensar a perda.
Ao revisar esse assunto, tanto na companhia aérea como nos escritórios de consultores internacionais, o preço da compra voltou a ser prioridade. Como resultado, as queixas foram arquivadas na Argentina e na Securities and Exchange Commission (SEC), na US Securities and Exchange Commission.
A causa local, que permaneceu nas mãos do juiz federal Sergio Torres, não avançou e está aguardando mais provas. A justiça dos EUA não foi acionada no caso argentino, embora negociasse com a empresa brasileira o pagamento de 206 milhões de dólares como multa por ter pago subornos em vários países para obter contratos. Tudo indica que o juiz Torres terá novas provas para se livrar desse arquivo devido a sobretaxas. Recalde e Alak devem estar vigilantes. Com Jaime é mais fácil, ele pode ser encontrado preso na prisão de Ezeiza.
Apenas para ilustrar: em 2008, a Aeromexico pagou 29 milhões de dólares por um E-190. Em julho de 2009, a TACA Airlines pagou 30,5 milhões. No mesmo ano, a Air Europa pagou US$ 31 milhões por um E195, a aeronave mais moderna que a Embraer tinha na época. A Argentina pagou 34,9 milhões por cada um, em uma operação de 22 unidades.
A decisão da venda tem a ver com o tamanho da aeronave
Desde que chegaram, havia muitos especialistas que advertiram que eram para uma Argentina que voa pouco e que, assim que o mercado aumentasse, não seriam úteis. Bem, o mercado acordou.
O jato Embraer consome menos, mas em um quadro de combustível relativamente barato e um mercado de alta demanda, tornam-se não econômicos, já que para levar as mesmas pessoas precisam de mais frequências. O menor consumo não compensa. Por exemplo, na rota de Buenos Aires / Neuquén, seriam necessários oito ou nove jatos Embraer para cobrir cinco voos de um Boeing 737-800.
Na Aerolíneas, eles abrirão um concurso em janeiro para a compra de substituições potenciais. Então, os grandes fabricantes serão chamados, como Boeing, Airbus, Bombardier e Embraer.
“O racional da análise da venda é poder substituí-los por aeronaves maiores para um mercado crescente, o diferencial de preços é mínimo em comparação com a possibilidade de otimizar mais vendas de assentos”, confirmaram na empresa.
As contas são concretas. Se algum voo for retirado da rede, o que requer a mesma equipe – apenas um membro adicional da tripulação de cabine -, o mesmo expedidor, manutenção e pessoal do aeroporto, e com um consumo de combustível adicional entre 15 e 20% para o maior tamanho do avião, estaria disponível entre 40 e 120% de assentos adicionais para venda.
A companhia aérea estatal decidiu vendê-los todos juntos. O problema é que os vendedores já olham para o mercado e não existem compradores a um bom preço para os 22 aviões. As ofertas que chegaram forçariam, se fossem aceitas, a registrar uma enorme perda nos balanços da empresa.
O pagamento dos jatos da Embraer foi feito através de um empréstimo assinado entre a Austral e o BNDES, e incluiu o financiamento de 85% do valor de cada aeronave.
A operação totalizou 646 milhões de dólares em capital e 320,8 milhões de juros acumulados. A taxa em que foi atualizado foi de 7,45% anual em dólares, é claro. Foi o Banco de la Nación que concedeu as garantias sobre as notas promissórias emitidas pela empresa para cada uma das aeronaves adquiridas.
Uma compra complicada
- Custo pago por avião, em milhões: US$ 34,9
- O montante do crédito, em milhões: US$ 646
- Diferença com o preço de mercado: 20%
- Dívida, em milhões: US$ 360
- Cada uma das aeronaves atualmente tem um preço no mercado que não excede US$ 12 milhões.
Fonte: La Nacion
