
Hoje ninguém imagina cruzar o oceano em um navio ou em aviões “a hélice”, o que era uma rotina até o início até a metade do século passado. Contudo, os passageiros que embarcaram em Londres, com destino a Nova York, em 4 outubro de 1958, estavam iniciando uma nova era.
A então BOAC – British Overseas Airways Corporation, que havia recebido dois de Havilland Comet 4 inaugurava seus voos a jato entre a Inglaterra e os Estados Unidos. O voo de Nova York era realizado sem escalas, enquanto o de Londres exigia uma escala técnica em Labrador para reabastecimento. O motivo era a predominância de vento de proa nos voos para os Estados Unidos, o que aumentava consideravelmente o consumo.
O Comet foi o primeiro avião comercial a jato da história, tendo iniciado suas operações em 1952, mas uma série de acidentes graves marcaram a primeira geração do modelo. O Comet 4 havia recebido uma série de melhorias, inclusive teve grande parte de seu projeto refeito em relação ao modelo original. Um dos destaques era sua elevada velocidade, para a época, superior aos 800 km/h, quase 220 km/h mais rápido que os aviões a pistão. Além disso, era o único que podia voar acima dos 40.000 pés, acima do mau tempo, assegurando uma viagem mais tranquila e confortável. O ruído e vibração interior também bastante inferior aos aviões à hélice.

Os voos entre Nova York e Londres duravam pouco mais de 6 horas, enquanto em sentido contrário aproximadamente 10 horas, por conta da escala técnica e da menor velocidade em voo. Um tempo inferior a qualquer rival, como os Lockheed Super Constellation, Douglas DC-7 e Boeing Stratocruisers.
Os primeiros voos transatlânticos incluíam uma confortável configuração com apenas 48 assentos, entre a primeira classe a cabine Deluxe. Em tempos sem comunicação em massa ou entretenimento digital, o serviço de bordo incluía menus de coquetéis e canapés, refeições de 5 pratos e petit-fours. Sem contar um serviço de chá no melhor estilo britânico.
Evidentemente que o valor da passagem era proporcional ao serviço e a procura bastante modesta daqueles tempos. O voo apenas de ida custava aproximadamente US$ 10.000, enquanto hoje é possível comprar um bilhete de ida e volta por US$ 500.
Após receber a aprovação do aeroporto de Idlewild (atual John F Kennedy) a Comet se adiantou a rival Pan American Airways para inaugurar a rota a jato. O primeiro voo comercial transatlântico também foi uma vitória para o fabricante da de Havilland, que após enfrentar uma série de problemas com os primeiros aviões da série Comet, agora estava à frente, ao menos na data de inauguração do voo, das rivais norte-americanas. Todavia, durante os quatro anos que os britânicos revisavam o projeto do Comet, os norte-americanos apresentam ao mercado os Boeing 707 e Douglas DC-8. Ambos apresentavam maior capacidade, com até 100 assentos em configuração de alto luxo, velocidade superior e alcance extentido em relação ao Comet 4.
Mesmo pioneiro, em poucos meses o Comet 4 se tornava visivelmente ultrapassado. As rotas intercontinentais logo passaram a ser dominadas pelos 707 e DC-8. Ainda assim o mérito do primeiro voo, ocorrido há 60 anos, que mudaria para sempre o mundo é do Comet.
Fonte: Aeromagazine
